Educação para o consumo responsável: lugar de encruzilhada de saberes

Educação para o consumo responsável: lugar de encruzilhada de saberes

Rui Tinoco, psicólogo clínico

O consumo responsável constitui-se como um tema importante em termos de educação para a saúde. É uma área em que se impõe uma série de encruzilhadas, capazes de chamar à ação diversas disciplinas e profissionais. Um campo temático imediatamente evocado tem que ver a vertente ambiental e o modo como vivemos no nosso planeta.

Mas o assunto evoca muitas outras áreas. Pensamos no impulso de comprar, tantas vezes acarinhado pelos media, e que necessita ser pensado em termos educacionais e psicológicos. Este trabalho implica não só o reforço das competências de decisão, de reflexão sobre o ato de comprar e de possuir um determinado bem, mas também competências na área da gestão e consequências do ato de comprar.

Neste ponto, o assunto realmente complexifica-se e define um espaço em que o diálogo interdisciplinar se torna possível e interessante. Em primeiro lugar, as consequências do ato de comprar. Essas consequências podem ser exploradas em termos exteriores – isto é, em termos de meio ambiente e na vertente social. Deste modo, torna-se possível cruzar a área com a educação ambiental e com temas como a mão de obra infantil, condições de trabalho noutros países, direitos dos trabalhadores, entre outros.

O ato de comprar é também um ato individual que convoca dimensões internas como as já anteriormente mencionadas, mas não só… Realçamos, em primeiro lugar, o conceito de gestão. Mais concretamente, a gestão dos recursos necessários e disponíveis, o que convoca variáveis como o auto-controle, o adiamento da gratificação ou seja, novamente as competências de tomada de decisão. Que fatores influenciam as tomadas de decisão que efetuamos? Somos realmente livres nas escolhas que fazemos? Ou somos influenciados? E por quem?

As interrogações introduzem-nos a dimensões relacionais como os ídolos e pessoas que admiramos? Queremos ser como elas? Queremos ter o que elas têm? Somos realmente influenciados pelos nossos amigos? Para além destas questões, que convocam variáveis de carácter interpessoal, temos ainda a questão central da publicidade e da linguagem publicitária, nas várias plataformas mediáticas em que é utilizada.

Chegados a este passo, as variáveis até agora enumeradas, que convocam estratégias educativas e psicológicas, possibilitam um sem número de combinações e estratégias. A linguagem publicitária desenvolve-se a propósito de uma infinidade de produtos. Elenquemos alguns: a compra de jogos de computador e correlatos; a compra de roupa e outros artigos de vestuário; a questão da escolha e compra de produtos alimentares.

Temos então a ideia das dependências não químicas e dependências a jogos na sua vertente preventiva: de que modo escolho os meus jogos? O que influencia esta escolha? Que uso irei fazer desses jogos? Da mesma forma, a questão da moda e da aparência convoca variáveis na área da imagem corporal, a forma como os pares nos podem ver. Finalmente, a questão dos produtos alimentares que convoca a ideia da decisão sobre o que como, os estilos de vida saudáveis – ou não – que adotamos ou pretendemos adotar.

Definimos então um campo em que para além da vertente educativa mais ligada ao professorado, poderão trabalhar diversos profissionais na área da educação para a saúde como psicólogos, nutricionistas, assistentes sociais, enfermeiros e médicos.

Uma forma de se integrar todas essas variáveis passa também pela exploração dos recursos existentes na comunidade. Por exemplo, a questão dos estilos de vida saudáveis, os locais de compra podem estimular uma atitude mais ativa face ao conhecimento dos recursos existentes numa dada realidade.

Tudo isto permite a introdução do vivido e do sentido de autoria nas aprendizagens.

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Originalmente publicado: Educação para o consumo responsável: lugar de encruzilhada de saberes, A Página da Educação, nº 211, 2018.

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