Novas formas de adoecer psiquicamente: para ler sinais e comportamentos nas escolas

Novas formas de adoecer psiquicamente: para ler sinais e comportamentos nas escolas

Rui Tinoco, psicólogo clínico

Muitas mudanças sociais que temos vindo a testemunhar desde a segunda metade do século passado encontraram expressão em vários autores de expressão mundial. Cada um deles firma uma perspetiva sobre essas mudanças: Lyotard, ao propor uma condição pos-moderna para o conhecimento científico, também ele fundado em provas submetidas a jogos de verdade e performance; Sennett com o conceito de corrosão do carácter, acompanhando escolhas profissionais e éticas cada vez mais vergadas às vicissitudes do mercado; o amor líquido de Bauman dando conta de uma instabilidade e fragmentação dos laços emocionais. Dedicaremos esta breve nota a mapear alguns trabalhos na área da psicologia, também eles impulsionados pela necessidade de pensar todas estas modificações.

Antes disso, porém, socorrer-nos-emos de um autor pos-segunda guerra mundial que dava conta no O Fim da Idade Moderna (título de uma das suas obras)da fissura que surgia entre a responsabilidade individual e a ação de cada homem. Leiamos uma passagem:

“…ao homem que vive assim chamamos «não humano». Esta palavra não exprime um juízo ético, tal como «humano» não exprime. Designa uma estrutura que se tornou histórica e cada vez mais característica – a estrutura na qual o campo de experiência do homem foi ultrapassado pelo seu campo de conhecimento e de ação.” (Guardini)

As estruturas tecnológicas e de um modo geral a forma como se fazem as grande escolhas económicas, por exemplo, separa os decisores das consequências reais, digamos assim, dos seus atos. A esta dimensão não humana, que sublinhamos em Guardini, somamos a dimensão narcísica também ela bastante considerada por autores como Lipovetsky e Lasch. Com eles, damos conta que o espaço social foi invadido por princípios e motivações individuais.

Neste momento, convoquemos alguns autores na área da psicologia. Lebrun sublinha a ideia que a transmissão da condição simbólica mudou, de uma sociedade vertical para uma horizontal. Assim, cada indivíduo deixa de se situar – para o bem para o mal – perante uma ordem normativa que lhe exige escolhas. A partir de agora tudo é possível, eis a liberdade total: uma liberdade sem vínculos que exige aos indivíduos que se construam perante o nada (isto, concretizando, também perante pais com dificuldades em impor regras porque tudo é possível também para eles).

Zimmerman também chama a atenção para uma mudança de centralidade: o pensamento e a palavra são progressivamente substituídos pela imagem. As imagens virtuais, criam possibilidades de confusão entre o que é real e o que é imaginário e, por isso, pertencentes à ordem do puramente individual. O autor considera que a modificação deste estado de coisas «…representa um estímulo à busca de ilusões, de simulacros, de fetiches, sendo que aquelo que parece ser é tomado como, de facto, sendo.»

Assim, a realidade clínica, a experiência de sofrimento psíquico nos casos atendidos, tem vindo a modificar-se. Surgem formas de sofrer mentalmente agrupadas, segundo este e outros teóricos, sob o conceito de patologia do vazio. Zimmerman considera aqui o sofrimento que envolva a identidade, os sentimentos de baixa autoestima, a “epidemia” de quadros depressivos e ansiosos. A estes somam-se ainda os altos graus de angústia livre (p. e. pânico sem significado associado); as personalidades “falso self” como as perturbações de personalidade como as narcísicas, psicoses, estados limite (borderline), perversões entre outras.

Em relação aos jovens, e seguindo de perto o mesmo autor surgem, para além de algumas acabadas de referir, as somatizações, as perturbações do comportamento alimentar (como a bulimia e a anorexia), as perversões e as psicopatias, bem como o consumo de drogas. Estamos perante uma série de novas perspetivas teóricas para enquadrar patologias já conhecidas e estas formas diferentes de adoecer psiquicamente, que podem ajudar também a compreender fenómenos muito frequentes nas nossas escolas como o bullying e o cyberbullying.

É forçoso que terminemos esta breve nota. Kohut já falava da substituição do homem culpado pelo homem trágico. Este é um homem que se debate com a diluição dos limites, que pugna pela ideia de liberdade total e o imperativo da autorrealização, mas que é esmagado por eles no derradeiro momento. Os limites existem: quanto às feridas que este embate pode causar, tentámos sinalizar aqui algumas delas.

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Originalmente publicado em: Novas formas de adoecer psiquicamente, A Página de Educação, nº 213, 2019.

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