A Apresentação do Professor na vida de todos os dias e o know where
Noutras ocasiões, tracei algumas notas sobre o conceito de know where, ou saber onde, e as suas implicações nos temas da educação para a saúde que costumamos abordar neste espaço… Rapidamente: numa era em que o acesso à informação é cada vez mais acessível e omnipresente, às competências do saber fazer acrescem outras relacionadas com o saber onde. A ideia de saber localizar com celeridade informações necessárias à nossa performance profissional desempenham cada vez mais um papel importante.
Existem já estudos que atestam que, em determinadas situações experimentais, relacionadas com a utilização da internet, as dimensões relacionadas com informação concreta são preteridas em benefício da memória da forma como se pode obter essa mesma informação (consulte-se por exemplo a revisão bibliográfica sobre o tema efetuada por Mills, 2016*). Abordei essa questão mas normalmente, nos textos que li, o know where é abordado como uma competência relacionada com a situação de aprendizagem. Na verdade, porém, nada impede de ser uma competência relacionada com o processo de ensino.
O título deste texto faz referência a um trabalho do conhecido sociólogo Erving Goffman, traduzido para a nossa língua como A Apresentação do Eu na Vida de Todos os Dias. Nele o autor estuda determinados comportamentos e normas que o eu profissional tende a observar, nomeadamente no interior das chamadas equipas de desempenho.
Assim, podemos considerar que o saber onde pode influenciar a forma como os professores se apresentam no seu contexto profissional. Tive esta perceção eu próprio quando, numa aula de aprendizagem de uma língua estrangeira, a professora, cuja língua maternal estava a ensinar, não tinha qualquer problema em, no meio de uma aula, quando confrontada com alguma questão que lhe suscitasse dúvidas, consultar a internet. A partir dessa consulta desenvolvia as suas explicações.
Tratava-se de gestos naturais que a professora, muito jovem por sinal, fazia sem sequer pensar muito neles. De qualquer forma a imagem de alguém que sabe mais que os alunos, numa assimetria constante, em que não é expectável dar parte de fraco, não passava sequer pela cabeça daquela profissional: quando os seus alunos lhe pusessem uma questão a que não sabia rapidamente responder, era-lhe natural consultar o computador, em plena sala de aula, e a partir da informação recolhida posicionar-se sobre uma dada questão.
Não nos surpreendamos: à medida que a geração que convive desde o seu nascimento com as novas tecnologias, em que o saber onde passou a ser um conceito central na sua aprendizagem e desenvolvimento de competências, uma vez instalados no papel complementar de professor, a utilização do saber onde passa a ser uma ferramenta normal e funcional no desenvolvimento da sua atividade.
Assim, poderemos estar perante o início de uma mudança da forma como o educador ou o professor se apresenta na sua atividade quotidiana. O saber onde implica o aluno na rede, em que saber localizar informação se torna uma das competências nucleares, da mesma forma o professor pode passar a ser encarado nos mesmos termos binários.
Rui Tinoco
Psicólogo Clínico
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*Mills, Kathryn L. “Possible effects of internet use on cognitive development in adolescence.” Media and Communication 4.3 (2016): 4-12.