A medição do que tem impacto em termos científicos foi sendo, nas últimas décadas, dominada por lógicas bibliométricas. Muito rapidamente: a escrita científica foi sendo circunscrita ao artigo, revisto por pares, indexado em determinadas bases de dados de dimensão mundial. Definido o objeto, primeiramente nas ciências ditas exatas, mas posteriormente nas ciências sociais (que tendem a perder a ideia de livro e de livro coletivo): tratava-se de construir indicadores que pudessem de alguma forma medir o seu sucesso. Esses indicadores passaram num primeiro momento a medir as citações e, sobre elas, construir fórmulas e depois algoritmos.
Hoje, de todos estes movimentos, queremos falar da auto-citação, das formas que ela pode adquirir. De facto, confrontadas com a ideia de que um determinado trabalho tem mais sucesso, conforme as vezes que for citado muitos investigadores tenderam a citar-se ou citar redes de investigadores que de alguma forma poderiam retribuir a gentileza.
Ao longo dos anos a auto-citação passou a ser vista como uma prática suspeita, desonesta até. Algo que deve ser contrariado. De facto, os indicadores métricos das citações e auto-citações das ciências sociais e psicológicas nacionais parecem ter compreendido que a auto-citação é algo que se deve evitar. De facto o número de auto-citações parece estar estável mesmo tendo em linha de conta o aumento do número de publicações nacionais: o seu peso relativo diminuiu.
Este estado de coisas parece pôr em causa uma vontade que nos recordamos em nós, como leitores, nos anos iniciais da nossa formação: se gostávamos de um determinado autor, gostávamos de saber que mais ele escreveu e a propósito de quê. Esta vontade parece ser cada vez mais frustrada nas referências bibliográficas atuais. Pondo as coisas nos extremos: se, por um lado, o excesso de auto-citação pode indicar um autor que apenas pensa na sua promoção pessoal, a ausência dela pode de alguma forma “assassinar” a ideia de autor – alguém que produz uma obra que implica, de algum modo, alguma forma de autorreferência, dado estarmos perante um pensamento que se vai desenvolvendo.
Esta forma de medição do impacto científico implica também o prestígio das próprias revistas científicas. A média de citações que cada artigo obtém numa determinada revista diz-nos também do impacto e da importância de uma determinada publicação. Em determinadas situações há uma pressão para que os autores que propõem um paper citem trabalhos publicados na mesma revista a que submetem a sua investigação. Trata-se de uma outra forma de auto-citação, desta feita mais camuflada, digamos assim
No final do mês de junho, a Medscape publicou uma notícia precisamente sobre este tema. A Clarivate, a empresa responsável por um dos indicadores mais conhecidos mundialmente, o Impact Factor, detetou um viés relacionado precisamente com este novo tipo de auto-citação que acabámos de referir. Na área da cardiologia identificam-se revistas em que 70% das citações apontam para trabalho publicados nas mesmas revistas – prática que aumentava artificialmente o impacto desses periódicos. Esta constatação deu origem a que 33 revistas fossem excluídas desse serviço de indexação e outras 15 fossem objeto de notificação/advertência.
Vivemos num mundo em que os rankings e as escalas de valor estão cada vez mais na ordem do dia. Na ciência, a publicação de um paper numa revista indexada, e o número de citações que ele obtém, suportam escalas de valoração. Anotámos aqui algumas das consequências menos positivas deste desencorajamento da auto-citação em relação à ideia de autor, um conceito que ainda nos parece central nas ciências sociais. Vimos, também, a forma como esta pressão para o sucesso poderá pressionar algumas revistas científicas no sentido de desonestidades bibliométricas.
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Originalmente publicado em: Escrita Científica na atualidade: o caso da autocitação, A Página da Educação, nº 215, verão 2020
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Rui Tinoco
Psicólogo Clínico, Pos-Doc