A construção de um eu virtual em idade escolar

Usando uma plataforma comunicacional, uma adolescente conhece um rapaz de quem se agrada. Pouco importa o contexto internáutico em que tal sucedeu como o Messenger, uma sala de chat, o HI5, o Second Life, o Twitter ou uma outra rede social. Sabemos bem que as fronteiras são fluidas e que um contacto num qualquer dos suportes referidos pode ser desenvolvido num outro, por exemplo: um avatar do Second Life tem a sua própria página, enquanto personagem fictícia, no Facebook…

A nossa adolescente é uma internática experimentada. As muitas horas passadas em vários suportes explicam o sentimento de mestria e de segurança que sente. Queremos dizer: ela acha que consegue seleccionar pessoas interessantes pelo seu estilo de teclar ou pelas escolhas que fazem no virtual. De qualquer modo, interessa-se pelo rapaz e os contactos intensificam-se…

A dada altura enche-se de coragem: marca um encontro no real. Escolhe um local seguro ou então leva uma ou duas amigas como forma de protecção. E não nos alarmemos: a pessoa que comparece ao encontro é de facto um rapaz, da mesma idade que a nossa personagem. Não é de estranhar, pois já tinham falado via webcam e trocado fotografias. Esta intimidade tinha minimizado qualquer tipo de surpresa (pelo menos aparentemente).

Quando o encontro terminou, a decepção era uma nota dominante… e porquê? O rapaz era extremamente tímido, muito nervoso, não conseguia manter uma conversa até ao fim. Tratava-se do completo ao oposto da maneira de ser da personagem internáutica com quem interagia. É que o avatar aparentava ser extremamente seguro e autoritário. Exalava um desprendimento atractivo…

A adolescente estava desconcertada. Sentia uma paixão incipiente que foi totalmente defraudada. Quando chegou ao quarto ligou o computador. Tratava-se de um gesto maquinal: dentro em pouco estava novamente a teclar com o seu amigo… e a atracção reacendeu-se… Eram lançadas as bases para um relacionamento afectivo problemático e confuso, em que os planos de realidade se cruzavam, criando amplas margens de ambiguidade.

Não pretendemos exercer aqui uma acção moralizante ou alarmista. Existem casos de comunidades virtuais plenamente estimulantes e ricas em termos de troca de ideias e de relações humanas. De resto, será praticamente impossível “desinventar” estas possibilidades. Trata-se também de reflectir sobre as modificações que estas novas socializações poderão provocar.

Pensamos em famílias com dificuldades em impor regras e limites, ou ainda em famílias com regras muito rígidas em que os maus-tratos possam surgir. Nestes casos, e em muitos outros, a internet fornece um espaço ao lado da realidade que poderá fornecer respostas mágicas a muitos impasses biográficos que as crianças e adolescentes possam estar a viver.

Trata-se de uma problemática que adquire uma certa representatividade em termos de pedidos de consulta de psicologia. Surgem crianças que passam noites em claro a conversar com pessoas que não conhecem, que se aproximam de ideologias subculturais, que desenvolvem relações ambíguas ou que são enganadas por pessoas mais velhas.

Para além de aceitar o desafio da internet, de promover os computadores Magalhães, precisamos de nos prevenir para o reverso da medalha. As disfuncionalidades familiares serão igualmente replicadas nestes suportes… Resta saber que rostos adquirirão.

Em todo o caso, seria necessário apostar com tanto ou mais vigor em programas de educação parental que possam dotar certas famílias de instrumentos e competências. Elas terão de lidar com os novos desafios, positivos e negativos, que o mundo virtual consigo acarreta.

In A Página da Educação Primavera 2010

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