Os cyber-cafés: o mundo virtual e a dissipação dos corpos

Logotipo do jornal O Primeiro de JaneiroPassou a ser quase lugar comum, quando se fala na Internet, sublinhar-se os perigos de um espaço que é volátil, em que as identidades não estão definidas à partida. Multiplicam-se os mal entendidos, algumas vezes bem desagradáveis. Avisem-se os incautos pais: é preciso saber se as filhas passam demasiado tempo ao computador, podem estar a falar com desconhecidos, cheios de malévolas intenções. A interacção informática despoja os comunicadores do não verbal, de certos traços afectivos que acompanham qualquer conversa. E, de repente, o perigo espreita no interior da nossa própria casa.

O mundo virtual traz vantagens que todos nós sabemos, mas também nos despoja de muito. O caso das salas de conversação é, a seu modo, paradigmático: as pessoas entram num suporte informático e conversam, a coberto de identidades fictícias, uns com os outros. Porém, não se conhecem realmente e, os que usam várias vezes o mesmo nick, acabam por criar uma rede de conhecidos que não o são. Ao interagir apenas por trocas de frases, como acontece nessas salas, as pessoas imaginam o que o outro é, sem se confrontarem com situações que possam desfazer essa imagem. Daí que os encontros possam correr mal e trazer muitas decepções.

Mas já vai sendo tempo de justificarmos um pouco o título do texto de hoje. Nele, falamos de cyber-cafés e na dissipação dos corpos. Sobre a dissipação dos corpos já nos alongámos um pouco: a perda da voz, do não verbal… em relação aos cyber-cafés nada dissemos. Ora este género de estabelecimentos está ainda pouco em voga no nosso país. Ele oferece um serviço normal de cafetaria, ao mesmo tempo que aluga computadores com acesso à Internet.

É aqui que nos confrontamos com a verdadeira dissipação dos corpos. Trata-se de um novo fenómeno social, emergente no Japão: há um crescente número de jovens que passam o dia todo nestes estabelecimentos. No país do sol nascente, existem lojas desta categoria que estão permanentemente abertas, disponibilizando duches. Assim, muitos trabalhadores, em vez de regressarem a casa ficam a noite toda na net. Há também formas, mais ou menos mascaradas de sem abrigo, que habitam nestes espaços. Imaginem: todas estas pessoas ficaram, involuntária mas também voluntariamente isoladas da família, dos amigos reais… O monitor informático serve-lhes todas as necessidades.

Certamente que o virtual brilhará mais. Sem dúvida que os amigos imaginários terão muito menos defeitos e concordarão mais connosco. Será também fácil realizar os desejos que nos acompanham e que nunca quisemos admitir… mas é tudo resolvido no virtual, porque o corpo, esse, fica do lado de cá, preso como está à sua materialidade. Daí que os jovens japoneses o mal tratem: que fique num lúgubre cyber-café, enquanto que o eu imaginário vive uma paixão simbólica, aquecida por um sol virtual e infalível.

O Primeiro de Janeiro, 31 de Outubro de 2007.

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