Práticas parentais: o que digo e o que faço – crónica

Um menino chora no supermercado, quer que a mãe lhe compre um chocolate. A mãe diz que não, zanga-se mas o menino continua com o chocolate na mão. A tensão acumula-se… Ambas as partes ficam tensas. A birra acaba por ser tão grande que a mãe acaba por ceder. Nervosa, tece o seguinte comentário: «Fazes sempre o que queres»…, assegurando a quem a quisesse ouvir: «Esta criança tem uma força de vontade!…».

A interacção é assaz curiosa e não tão pouco invulgar como seria aconselhável. A mãe, ao não conseguir ser firme, devolve uma imagem da criança à própria que não é das mais saudáveis: a imagem de alguém que é rebelde, que faz sempre o que quer, que tem uma força de vontade que vence a do adulto. A mãe não se apercebe que teve uma prática educativa contraditória: disse que não ia dar o chocolate mas na verdade nada fez no sentido de lhe tirar o chocolate das mãos e de fazer respeitar a sua ordem.

Qualquer a intervenção verbal directa, no sentido de impor um comportamento, deve ser acompanhada da remoção do estímulo, no caso o chocolate. As práticas parentais devem ser assim coerentes e aplicadas atendendo às necessidades emocionais das crianças, mas de uma forma firme.

Os exemplos podem replicar-se nas mais variadas situações. O caso do exemplo é um dos mais flagrantes e dos mais frequentemente esquecidos. De facto, se pedimos ou exigimos algo às nossas crianças, o não fumar por exemplo, esse comportamento é mais difícil ser cumprido se formos, nós próprios, fumadores. Outro caso com que nos confrontamos frequemente tem que ver com a ameaça de castigos muito severos. Neste género de situações, o pai ou a mãe ameaça pôr a criança num colégio interno se ela continuar a comportar-se de determinado modo. Ela continua a portar-se mal e nada acontece. Os castigos severos muitas vezes não são aplicados, o que acaba por provocar um certo descrédito junto da criança.

Por outro lado, existem também os pais que constantemente castigam. Os castigos são fortes e prolongados no tempo. A criança acaba por não ter nada a perder. É o velho ditado: perdido por cem, perdido por mil. Ao longo da nossa experiência profissional ouvimos mães a dizer parece que ele/a já não quer saber dos castigos, que já não lhe interessa.

Existem dois grandes vectores no que respeita às práticas parentais: um, é a forma assertiva e eficaz com que os pais fazem valer as regras familiares; um outro, tão importante como o primeiro, tem que ver com a sintonia emocional entre pais e os seus filhos. Os educadores têm de saber ler as necessidades emocionais dos seus filhos e de algum modo estar em sintonia com elas. O ambiente que estes dois vectores acabam por criar, um ambiente de regras e de sintonia emocional, funciona como pano de fundo em que muitas das práticas parentais acima referidas evoluem, ou seja: práticas parentais correctas em ambientes desestruturados acabam também por ter efeitos contraproducentes.

Um pouco por esse país fora têm-se organizado grupos de pais. O objectivo passa pela criação de ambientes protectores, que fomentem a partilha de experiências e a construção de percursos redes de interajuda. Os papéis paternal e maternal são exigentes. Muitas vezes as pessoas sabem o que é correcto mas não o conseguem levar prática. Existem inúmeras variáveis emocionais que podem fazer com que uma mãe ou um pai acabe por ceder às exigências da filha ou do filho.

A crescente taxa de divórcios também desempenha aqui um papel de relevo. O facto de os pais estarem separados acarreta a existência de dois contextos de educação, o aparecimento de outras figuras – como o padrasto ou a madrasta – e todo um campo para o surgimento de ruídos e incoerências. Mais uma vez, as variáveis emocionais nascidas do ciúme, da dificuldade em impor certas regras que são depois ignoradas pelo outro lado, tornam tudo mais difícil. Também aqui o grupo de pais pode ser uma ajuda, em termos de compreensão e troca de experiências comuns ou não tanto assim.

Falámos em grupos de pais como um instrumento de eleição para a partilha e a evolução de muitos de nós na sua relação com o papel paternal e maternal. Mas a dificuldades são inúmeras: o contexto pós-laboral, a dificuldade em deixar os filhos em casa sem ninguém que olhe por eles… E depois já no interior do grupo: a barreira do socialmente correcto, o achar que se sabe tudo e que as coisas não podem ser vistas de outra maneira… A verdade é que tudo pode ser visto de outro modo e a riqueza de um grupo reside precisamente aí, na multiplicidade de olhares e na troca de experiências.

Vencido o socialmente correcto inicia-se a partilha das práticas efectivas num contexto protector e securizante.

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