A omnipotência das audiências

O cliente tem sempre razão: mas neste caso trata-se de um cliente consumidor de produtos culturais. Ou ainda, e mais precisamente: o cliente organizado em grupo. Chegamos, pois, à ideia da omnipotência das audiências.

Duas ilustrações: a exigência que se fez a Salvador Sobral para tocar a sua canção mais emblemática – apesar do cantor querer fugir a essa imagem de si. Uma outra: a exigência que se fez a Mísia para que cantasse A Casa Portuguesa, apesar do fado não fazer parte do seu repertório. Sei bem que não se trata da mesma situação. Existe, no entanto, um denominador comum: o do espetador a dizer o que quer ver e ouvir.

É claro que plateias exigentes. As pateadas no S. Carlos, por exemplo, existem desde há tempos imemoriais. Não é por aí que interessa a exploração do tema.

Eis então a tese: enumerámos estes casos como ilustrações de audiências habituadas à omnipotência tecnológica. Se virmos bem, muitas redes sociais, os comentários a crónicas, entre outros… fornecem simulacros do outro. Simulacros que podem ser maltratados, quase assassinados simbolicamente, sem resistências de maior. Estes espaços virtuais existem e multiplicam-se, possibilitando o insulto e o comentário instintivo e primário.

Assim, muitas audiências em vez de recetivas a novos espetáculos, a novas escolhas artísticas, em vez de atentas ao devir do artista, enquanto outro, enquanto subjetividade diferente da minha, o queiram capturar em estereótipos sociais ou enclausurá-lo numa imagem do que já foi.

A esta constatação, soma-se uma outra dela decorrente: a reação impulsiva e destrutiva se contrariada…

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