Toxicodependência e identidade de género: algumas anotações

A heroinodependência e o uso das drogas em geral sempre foi objeto de problematização científica, moral e até religiosa ao longo dos tempos. Nos finais dos anos oitenta e início da década de noventa ouvia, nos bancos da faculdade, professores que se questionavam sobre estes temas, nomeadamente Cândido da Agra. O consumo de drogas criava figuras e comportamentos que eram resistentes às abordagens tradicionais das ciências psicológicas e outras.

 Claro que esta novidade e abordagem filosófica atraíam muito e a juventude é sempre seduzida pelo pensamento divergente, de alguma forma contestatário – isto sem deixar de ser coerente, complexo e verdadeiro.

Alguns anos mais tarde, já no início da minha atividade clínica na área, outro assunto me surpreendeu: a maioria dos casos que atendi ou que assistia outros colegas mais experientes a atender eram todos do sexo masculino. Tendência que se manteve na quase década e meia que trabalhei na área.

De facto, os comportamentos de risco, de desafio, de rebeldia que me tinham cativado nesta área da intervenção psicológica tinham também atraído outros, outros homens, cujo percurso os tinha levado ao papel de consumidores.

Um primeiro questionamento: que sociedade é esta que produz tantos consumidores, sendo eles esmagadoramente do género masculino? Como se poderia canalizar estes comportamentos de risco e de desafio de uma forma produtiva e menos destrutiva para tanta gente? Uma sociedade que prefere lutar contra o risco e expulsar todos os perigos, que lugar reservaria a quem os quisesse correr?

Numa sociedade securitária e alérgica ao risco e disrupção, nesta área das drogas e em muitas outras, o preço a pagar é elevado. Neste momento, uma leitura em termos de identidade de género: o risco, o desafio e o perigo, associados a um papel tradicional masculino, traduzem-se nestes atos de dependência das drogas. Serão eles também um movimento de recusa social de valores relacionados com a visão tradicionalmente masculina?

Aqui o papel de analisador epistémico que Agra atribuía às drogas em termos epistemológicos poderia ser importado para a reflexão sobre a identidade de género? Será possível tentar perceber estas diferenças epidemiológicas também à luz deste tipo de identidade? Tanto mais que a diferença do consumo de algumas drogas como álcool, tabaco e outras tem assistido a uma aproximação de padrões entre homens e mulheres.

Adiante para um outro questionamento…

 

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Leia todo o artigo publicado no Portal dos Psicólogos aqui

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