Viagens souvenirs e fotografia

Logotipo do jornal O Primeiro de JaneiroTempo de verão, também nós tivemos direito à peregrinação do homem moderno: a viagem turística. Não nos faltaram os calções, as sandálias e a máquina fotográfica. Não nos faltou um olhar renovado, especialmente sensível à novidade dos lugares visitados. O mapa na mão e as hesitações sobre as ruas a seguir completavam o quadro.

As viagens a outros lugares, e até países, libertam-nos provisoriamente do nosso modo de pensar. Inopinadamente, uma miríade de detalhes e pormenores, que dávamos por certos no nosso quotidiano, alteram-se, desaparecem, já não estão lá. Poder-nos-emos enriquecer ao pensarmos essas alterações, ao darmos conta de pormenores em que nunca teríamos reparado.

A viagem a outro lugar desperta também outros desejos e um deles tem que ver com um sentimento de autoria. Procuramos comprar objectos que tenham que ver com os lugares visitados, fotografamos os monumentos connosco à frente… Todos estes actos podem transformar-se em marcos na nossa memória individual.

A indústria turística, prontamente, desenvolveu o filão das recordações. Em qualquer lugar histórico populam lojas para a venda de objectos alusivos, para a venda de postais. Não podemos deixar de pensar que essas práticas são, de alguma forma, adulterações da nobreza do acto inicial de trazer uma recordação.

Quanto à fotografia, observamos semelhante empobrecimento. As imagens da Torre de Londres ou do Coliseu de Roma connosco à frente constituem-se como forma de apropriação. Estamos de alguma maneira a inscrever a nossa marca passageira nesses monumentos. O problema é que esse gesto é frequentemente sobrevalorizado. Muitas pessoas preocupam-se mais em construir a recordação fotográfica, em fazerem a apropriação simbólica do monumento, do que em viver o presente.

As viagens organizadas são outro exemplo da mercantilização do olhar: entremos na Capela Sistina, mas só cinco minutos, pois ainda temos muito que ver. Pressa em ver, em tirar a fotografia. Parece que transportamos para as férias a superficialidade e a azáfama da nossa vida citadina.

O presente, o usufruto do momento, vale menos do que a construção de memória que sobre ele se faz. Ou seja: é mais importante a fotografia do que ver realmente o que se fotografa. Regressemos às imagens iniciais: o mapa, as sandálias, a vontade de ver… Escrevemos este texto também para descrever uma parte negativa das viagens turísticas. Uma certa irritação: tivemos de nos afastar, inúmeras vezes, do acto de apreciar porque alguém queria tirar uma foto e seguir correndo, numa pressa sem sentido.

A indústria turística, como qualquer outra forma de indústria, também massificou os gestos do lazer.

In O Primeiro de Janeiro,  6 Agosto 2002.

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