Estratégias da indiferença: a cidade normativa e a outra cidade

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A cidade moderna é polifacetada, policêntrica. Ligada por vias de comunicação eficazes que permitem uma ilusão, de outro modo impossível: é em pleno coração da diferença e da heterogeneidade que emerge a vivência do mesmo tempo e do mesmo espaço. Um personagem fictício que acabou agora mesmo de cruzar a grande urbe atravessou, quase sem se aperceber, milhares de espaços diferentes para chegar a um final bem próximo da partida: um apartamento semelhante ao seu, um grupo de amigos do seu nível sócio-económico e até cultural.

Numa pequena aldeia, a diferença  está mais próxima, mais domesticada. O louco é conhecido de todos e não só pelo seu papel de louco. À medida que a aldeia se transforma em cidade, porém, essa proximidade deixa de ser possível. Estruturam-se zonas ricas; zonas pobres; áreas de negócio e áreas conotadas com a delinquência. A diferença já não é próxima, nem tem nome próprio: o louco é apenas louco; o toxicodependente é apenas um vago indivíduo que consome drogas ilegais. A distanciação dos espaços favorece movimentos de estereotipização do outro.

Mas como é que todos nós convivemos concretamente com essa multiplicidade? O homem urbano desenvolveu estratégias de sobrevivência nestes contextos. Mecanismos que permitem uma simplificação dos estímulos. Quando cruzamos uma grande avenida, em hora de ponta, as pessoas têm uma expressão neutra, os seus olhares não fixam nada em particular. Se formos abordados por alguém, rapidamente catalogamos a interacção: se é plausível; se é de evitar, pois é um pedido que não esclarece a sua natureza com prontidão. O próprio espaço físico acompanha, frequentemente, esta tendência de impessoalização.

É um dado da literatura científica a percepção distorcida que muitos toxicodependentes têm das redes informais de apoio. Os consumidores de drogas ilegais, normalmente, têm a tendência para sobreavaliar o número de heroinómanos existente. É o outro lado da cidade que aqui está subentendida: a cidade dos bairros e do tráfico de drogas. Para muitos indivíduos, a vivência homogénea da cidade que acima nos referimos é precisamente essa: a do contacto permanente com o tráfico, com as drogas, com os mecanismos de repressão e de controle social.

Quais as consequências deste viver fora da cidade normativa? O contacto com as estruturas da cidade normativa é realizado, por muitos heroinómanos, na expectativa da injustiça ou de que algum tipo de incongruência ocorra. Isto é tanto mais comum quanto mais excluído o indivíduo se apresenta. Sublinhemos a importância adaptativa desse sentimento de injustiça: o indivíduo preserva o seu auto-conceito, ao responsabilizar outros pelo que lhe está a acontecer. Depois, chamemos a atenção para um ciclo vicioso que muitas vezes é difícil de contornar. O sentimento de injustiça dificulta o contacto com essas esferas normativas. Os indivíduos exigem muito – exigências não raras vezes desajustadas – e a insatisfação dos seus pedidos tende a ser interpretada como uma confirmação dessa injustiça.

Nestas subculturas instrumentais, que elegem certos bairros sociais para a sua convivência informal, a intromissão da cidade normativa foi já incorporada num estilo de vida. Perguntámos a um utente se teve algum problema com a justiça e obtivemos uma resposta paradoxal, mas que é testemunha dessa distância de vivências que a cidade pode proporcionar: “não… só tenho um ou dois processos…”; e isto para não falar nas rusgas ou nas detenções temporárias, sem direito a acusação formal. Todos estes elementos fazem, pois, parte de um estilo de vida à margem da cidade normativa.

Outro utente, que atendemos, espantava-se por eu ter conseguido não ser toxicodependente. É nesta interrogação que se condensa toda a distância de vivências da cidade. É que a experiência quotidiana da urbe pode, a todos nós, fornecer certezas que afinal só se aplicam a uma ínfima porção do todo. São estas diferenças que não queremos ver no nosso quotidiano – e que, inclusive, muitas estratégias de ‘combate’ à droga insistem em ignorar.

A Página da Educação, Abril de 2002

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