A cidade moderna: mobilidade e anonimato

Logotipo do jornal O Primeiro de JaneiroSubitamente, todos ficámos presos da necessidade de velocidade. As vias rápidas inundaram o nosso quotidiano. A omnipresença do automóvel fez-se sentir em todos os espaços. Os rostos passam num ápice: em vez da senhora da mercearia ou do dono do café que nos conhecem desde meninos, o contacto tornou-se distante e impessoal. Deslocamo-nos ao hipermercado, onde a transacção comercial tem de obedecer aos princípios da eficácia e da celeridade. E é sempre o mesmo sorriso que nos agradece a amabilidade de termos escolhido aquele estabelecimento…(sempre o mesmo sorriso, mas sempre em caras diversas).

Um sem número de antropólogos chama-nos a atenção para o fenómeno da proliferação dos não lugares nas cidades modernas. Os não lugares são espaços que impossibilitam qualquer forma de identificação. Foram apagados os sinais contextualizadores: a loja da cadeia multinacional é igual em Moscovo e em Pequim. Também aqui os rostos sucedem-se velozmente.

O imperativo dos contactos fugazes estende-se de forma inexorável. Há anos atrás, impressionou-nos uma cena num filme. Na desorganização da cidade um homem e uma mulher encontram-se para a transacção sexual. A mulher chora implorando ao homem para não esquecer o seu rosto. Era esse o seu único pedido. O episódio passou-se em Hong Kong, mas realça um aspecto que já é mais do que um pressentimento: a mobilidade urbana destrói as tradicionais estruturas do contacto interpessoal.

Reina o anonimato na relação entre as pessoas. Daí a constante necessidade de provarmos a nossa inocência. Repetidamente: à saída da livraria, do hipermercado, o dispositivo electrónico julga-nos a honestidade. À entrada do aeroporto, do jogo de futebol, somos continuamente revistados. Os ditames da segurança são reflexos de sermos, progressivamente, estranhos uns dos outros.

A mobilidade estende-se à nossa própria habitação. Nos intermináveis prédios de apartamentos as pessoas desconhecem os seus vizinhos. Todos procuram, no outro extremo da urbe, o contacto interpessoal. A mobilidade oferece a vantagem do anonimato e da liberdade, mas é também uma prisão.

Há largos tempos atrás, recebemos em nossa casa o famoso poeta mendigo Sebastião Alba. Pediu-nos comida e nós demos-lhe. Seguiu-se a conversa informal: deslocava-se a pé, mesmo se tivesse de ir aos arredores de Braga. Acompanhava as grandes vias rodoviárias, disse-nos a propósito desses passeios: “não percebo porque é que as pessoas têm tanta pressa, os carros estão sempre a cortar o ar, a cortar o vento”.

Horror dos horrores: os carros cortam o vento e é mil vezes preferível ouvir o vento a fazer cantar uma árvore…

A mobilidade é definitivamente uma prisão. As estruturas rodoviárias são barreiras físicas que impedem o andarilho. A necessidade de eficácia transformou as cidades e modificou as relações humanas a um nível que permanece ainda por avaliar. Resta-nos ler esta crónica, meditar sobre ela uns vagos minutos. Quedará amarrotada entre os infinitos gestos da azáfama quotidiana.

In O Primeiro de Janeiro, 22 Julho 2002.

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