O cansaço de ser eu

Logotipo do jornal O Primeiro de JaneiroAs sociedades modernas bombardeiam os seus cidadãos com uma série de estimulações contraditórias. Por um lado, aceita-se como positivo cada um ser como é e apreciam-se casos de luta pela sua realização pessoal. Mas, na vertente oposta, a publicidade e os mecanismos ligados à moda impõem uma certa forma de felicidade ou um determinado modo de ser. No primeiro caso, basta ligar a televisão para sermos bombardeados com um sem número de anúncios em que as mensagens invariavelmente nos dizem que a vida é aborrecida sem um determinado produto. Assim, nos últimos anos, o número de comprador compulsivos tem vindo a aumentar no Ocidente.

O comprador compulsivo caracteriza-se por gastar dinheiro sem pensar, sentindo um impulso interior que só é aplacado, ainda que temporariamente, no acto de adquirir determinado bem. Está claro que este novo doente não precisa desse produto e dentro em breve estará novamente invadido por uma tristeza e desânimo que o impelirão a novo ciclo de compras. Agora pensem nos mecanismos financeiros que estão à disposição deste novíssimo género de doente: os empréstimos bancários, os cartões de crédito, etc.

Em muitos casos, a compra compulsiva acaba por se estruturar como uma conduta altamente problemática que é mantida em segredo até dos familiares mais próximos. Aos poucos, até o próprio começa a reconhecer que “algo não está bem” e a tentar fazer alguma coisa para se modificar, de mote próprio ou obrigado pelas circunstâncias. Eventualmente consegue um ciclo de abstinência, em que o medo da recaída é omnipresente, ou regressa a mais um período de compras descontroladas.

Trata-se, bem vistas as coisas, de um comportamento adictivo que não se afasta de muito de outros como o jogo, a ingestão compulsiva de alimentos, ou consumo de drogas e de medicamentos. Deixar que um qualquer comportamento invada as nossas vidas faz com que muito se altere. Listemos algumas modificações: a indisponibilidade de sentir os afectos que nos são dirigidos e que podemos dirigir às pessoas que nos são próximas; a ausência de prazer em muitas actividades que anteriormente nos eram prazerosas; a vivência de um tempo distorcido.

Em relação a este último ponto, apelemos às nossas experiências pessoais: quando nos entregamos de corpo e alma a uma determinada actividade nem damos pelo tempo a passar. Um comprador compulsivo tem o seu quotidiano organizado em termos do acto de comprar e desejar adquirir mais produtos, ou seja: também se deixa absorver de uma forma intensa por determinada actividade. Vive num tempo escravizado por essa necessidade omnipresente de comprar.

O cansaço de ser eu exprime-se de muitas formas nestas nossas sociedades de abundância. E o pior de tudo é que há a quem interesse este cansaço…

O Primeiro de Janeiro, 23 de Julho de 2008.

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