A corrosão do carácter: breves notas a propósito de Richard Sennett

corrosao do carácterÉ certo que a sensação de decadência e de dissolução dos costumes sempre surgiu, de uma forma ou de outra, em quase todas as sociedades humanas. A ideia de que a juventude está desorientada ou não tem valores foi familiar em diversos momentos históricos. Independentemente dos factos que apoiaram ou não estas asserções, existe também uma postura defensiva por parte daqueles que se afligem com elas. Dito de outro modo: aos mais velhos será mais fácil pôr os outros em causa do que a si mesmos…

Acabado este preâmbulo, que nos ajuda também a assumir uma certa relativização do que se irá defender nos próximos parágrafos, avancemos para a tese nuclear deste texto. A existência de uma certa corrosão do carácter consubstancia-se em diversos fenómenos que Sennett observou a propósito da sua investigação e que nós exploraremos. Em primeiro lugar a ideia dos princípios e da ética pessoal que são sucessivamente postos em causa por exigências laborais que alçam a eficácia a argumento inicial e derradeiro de todas as opções estratégicas. Diversos profissionais que se preocupam com a saúde mental dos trabalhadores notam como, muitas vezes, as empresas não investem num sentimento de pertença por parte dos seus empregados, pressionando-os, frequentemente de forma desumana, pondo em causa o seu bem-estar pessoal e mental que se reflete depois na própria rentabilidade da pessoa em causa.

Por outro lado, a corrosão da família nuclear. As exigências do mercado de trabalho introduzem a instabilidade quer em termos de rendimento, quer ainda no que diz respeito à própria organização espacial. Focamos aqui a questão da mobilidade nas sociedades urbanas: de manhã está-se em Braga, a meio do dia no Porto para preparar a reunião que ocorrerá antes do jantar na capital. Essas forças centrífugas acabam por pôr em causa os próprios alicerces materiais de muitas famílias.

A sociedade centrada, aparentemente, em valores hedonistas, de fruição e de prazer emite bastantes mensagens contraditórias: se por um lado afirma o prazer e a despreocupação, também não deixa de ser verdade que as exigências, a necessidade de sacrificio continuam a existir. Se mais não fosse preciso, poderíamos centrar o nosso olhar no número crescente de famílias que entram em falência. A facilidade de crédito, apoiada pela necessidade de fruir tudo já neste momento, acabou por ofuscar a dificuldade, o esforço que se terá de desenvolver… depois as consequências são graves e duradoiras: os juros acumulam-se, a impossibilidade para pagar as dívidas aproxima-se rapidamente.

A corrosão do carácter surge também na forma como encaramos o amor romântico, as relações afectivas e de modo geral as nossas emoções. Também aqui o primado do viver-se já, de se pôr em segundo lugar as responsabilidades tem as suas consequências. “Estou apaixonado por ti não tenho culpa…” mas dentro em breve já não sinto nada e procuro outra pessoa para voltar a sentir aquela coisa especial. Encara-se a paixão e o amor como uma droga, em que se procuram sempre novas sensações e, à custa dessa procura, se perde a capacidade de pensar e decidir sobre o próprio destino…

Identidade fluída e sempre à procura de novos desafios, em vez das identidades fechadas e estáveis no tempo que caraterizaram épocas anteriores. Com efeito, noutras épocas recebíamos uma profisssão e um saber que eram relativamente imutáveis ao longo da vida. Também as relações familiares e afetivas permaneciam estáveis. Sucede-se agora o oposto. O que se procura é a novidade e o saber novo, o velho já não interessa tanto e a experiência deixou de ser um posto.

Mas será que as pessoas são mais felizes assim?

Recentes estudos efectuados em torno de indicadores da saúde mental são particularmente alarmantes no nosso país. Referimo-nos a sintomatologias ansiosas (como ao stress, ataques de pânico entre outros) mas também as depressivas que se reflectem no aumento do consumo da medicação dedicada a estes sintomas. A identidade aberta ao mundo está mais acessível à mudança e ao crescimento, mas não pode ser um fim em si, sob pena da emergência de um certo sentimento de vazio e de perda do sentido do eu.

É que temos sempre que nos pôr as questões que preocuparam a humanidade. Quem somos? Para onde vamos? Temos fim? Nenhuma dessas perguntas tem resposta definitiva, bem o sabemos… Mas formulá-las num contexto de vazio e absurdo identitário será bastante mais complicado… Ou será que não concordam?

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