Dos consumos de drogas problemáticos a outros mais invisíveis

cartasA imagem do toxicodependente é recorrente em muitos meios de comunicação: o sem abrigo, que perdeu muitas coisas importantes da sua vida. Ele lamenta-se em frente da televisão ou da rádio dos enormes erros que cometeu e de muitas coisas que fez e de que agora se arrepende. Esta imagem era, e é evocada, a propósito do consumidor problemático de drogas duras como a heroína e a cocaína. Foi com o propósito do tratamento a este género de consumidores que desde o final dos anos oitenta e durante toda a década de noventa se montou uma rede de cuidados especializados.

No entanto diversos estudos e a própria evolução do mundo e das práticas do consumo de drogas demonstraram que a realidade vai bem mais além do que a figura do heroinodependente. Os consumidores adolescentes ou de drogas ditas leves achavam que não deviam frequentar os mesmos centros de tratamento e houve que criar respostas específicas para as suas problemáticas. Trata-se de um mundo com as suas próprias dificuldades e que revelou consumidores de drogas ditas leves, como o haxixe, com percursos de descontrole e perdas biográficas. É uma situação paradoxal: é uma droga leve, não dá dependência e, no entanto, existem pessoas que não conseguem controlar os seus consumos.

Estávamos perante um problema que existe também em relação ao alcoolismo. A relativa invisibilidade dos seus efeitos, a maior aceitação social da substância faz com que muitos dos consumidores adiem ainda mais a aceitação do seu problema. Adaptam-se cognitivamente à situação: quem tem problemas não são eles mas os outros, os que caem para o lado com o álcool, os que são sem abrigo ou os que injectam drogas. Como eles não fazem isso, então não existe qualquer problema. Este tipo de organização cognitiva é omnipresente em muitos dos consumidores de qualquer tipo de drogas, embora possam apresentar diversas nuances conforme as substâncias consumidas.

Já que falámos em alcoolismo façamos também uma breve referência às mudanças que o padrão de consumo acaba por ter nos dias de hoje. Por um lado, existem novas bebidas com quantidades de álcool apreciáveis, doces, fáceis de beber que rapidamente induzem estados de alcoolémia elevados. Não existe um enquadramento cultural como existe em relação ao vinho, cerveja e mesmo algumas bebidas espirituosas. Incentiva-se o shot, o beber de golada e as consequências podem ser catastróficas. Outra mudança relevante tem que ver com novos padrões de consumo de álcool. Frequentemente o consumo não é diário mas reduzido ao fim-de-semana. É o chamado padrão anglo-saxónico que também traz consigo efeitos negativos para o consumo dos usuários.

Também no que concerne ao consumo de drogas ditas duras de forma mais invisível é também uma realidade. Diversos estudos têm tentado estudar este fenómeno oculto relacionado com a prática mais controlada ou inserida socialmente de substâncias como a heroína e a cocaína. Aqui, variáveis como a família ou mesmo questões relacionadas com o autocontrole dos indivíduos podem desempenhar papéis cruciais. Sabe-se que existem consumidores que se encontram inseridos socialmente.

Finalmente focamos aqui o contexto universitário, onde a formação mas também o contexto de boémia e a experimentação de diversos papéis sociais acabam por ocorrer simultaneamente.

Mapeamos assim, muito sucintamente, alguns lugares dos consumos invisíveis

 

2002

 

 

 

Rui Tinoco, psicólogo clínico

 

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