Os idosos: uma marginalidade invisível

Logotipo do jornal O Primeiro de JaneiroO tempo, nas actuais sociedades, sofreu uma aceleração. Os ritmos quotidianos são marcados cada vez mais por compromissos, quantas vezes em locais desencontrados da cidade. Para agravar a situação, a mobilidade encontra severos obstáculos e os condutores maldispostos das horas de ponta deixaram há muito tempo de ser uma raridade. É, pois, um desafio pensar naqueles que se movem nas margens da vida urbana. Se atentarmos bem, os arrumadores de carros, os vendedores de rua… existe toda uma galeria de figuras que se movem nos interstícios da vida moderna. Os idosos, a seu modo, constituem um outro caso exclusão que, frequentemente, nem têm direito a menção, uma vez que não suscitam o estigma da desviância.

Nas antigas sociedades agrárias, em que a esperança média de vida era baixa, o idoso constituía uma raridade. Desempenhava importantes funções sociais… actualmente forma um empecilho. É ver o número crescente de idosos que populam nos centros das cidades. Estão desprovidos de qualquer rede de suporte social. Vivem em prédios, muitas vezes, sem elevador. Descer e subir escadas tornou-se uma tarefa complexa e aos poucos isolaram-se da vida exterior. Noutros casos, os filhos acabam por impor, de uma forma mais ou menos agradável, a sua visão das coisas. É o chamado complexo de Urano, em referência ao deus romano destronado pelos seus próprios filhos, na sua expressão mais desagradável.

Em muitas zonas, formam-se instituições que tentam assegurar um certo apoio domiciliário. A filosofia é manter o idoso no seu próprio ambiente. Depois há o centro de dia, onde se vai passar as horas diurnas. Aqui o objectivo passa por manter as pessoas activas e com uma nova rede de conhecimentos. Finalmente, existe o internamento em lares em que os idosos, acamados ou não, acabam por estar vinte e quatro horas (o que não invalida que muitos internados possam também frequentar centros de dia).

O problema de tudo isto é que é fácil aos lares acabarem numa rotina terrivelmente prejudicial. Sem projectos na comunidade, com pouca actividade interna que ultrapasse o transporte dos idosos da cama, à sala de convívio, ao refeitório. O passo para que se perpetrem outras agressões é também relativamente próximo: os maus-tratos físicos ou psicológicos. Urge, pois, instaurar inspecções a essas instituições, assegurar critérios mínimos de qualidade. E por que não criar, à semelhança do que existe com as crianças e jovens, uma Comissão de Protecção de Idosos? Deixamos aqui a ideia…

In O Primeiro de Janeiro, 15 Outubro 2008.

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