Os professores e os alunos na era digital

Logotipo do jornal O Primeiro de JaneiroAs imagens mexem-se com celeridade na sociedade actual. Tornaram-se omnipresentes: em outdoors, em planfletos publicitários, pelos jornais e televisões. As inovações tecnológicas democratizaram o acesso a tudo isto. É através de câmaras de vídeo, de máquinas digitais, que podemos criar ícones e memórias visuais da evolução das nossas famílias.

O advento de certas plataformas na internet permitiu um passo mais. A utilização de blogs, ou o famoso YouTube, tornaram possível a existência de revistas virtuais ou a ainda a divulgação de pequenos filmes. Múltiplas instituições já se aperceberam da mudança e transladaram-se parcialmente para a net. Assim, a maior parte dos bancos oferecem serviços no mundo virtual, os clubes de futebol criaram os seus próprios sites, onde produzem autonomamente a sua linha informativa, entre muitos outros exemplos. Podemos criar filmes e rapidamente torná-los disponíveis ao mundo.

Sabemos também do poder sintetizador que as imagens podem ter. Muitas delas fazem já parte da nossa memória visual. Citamos ao acaso: o revoltoso em frente dos tanques chineses, na praça de Tiananmen; o soldado atingido por uma bala e fotografado antes de cair, na guerra civil espanhola, por Robert Cappa… Estas imagens captam situações, capazes de instantaneamente exprimir o indizível.

Postos estes preâmbulos, entremos no assunto. A divulgação do vídeo em que uma aluna maltrata uma professora. Estamos perante uma caso em que a divulgação e o uso de plataformas informáticas despoletou uma grande onda de indignação pelo país. Os acontecimentos precipitaram-se: a facilidade da realização do pequeno filme, graças aos telemóveis; a pronta difusão através do espaço virtual… Só que as coisas não terminaram por aí: os mass media detectaram a dita gravação e, à divulgação virtual, somou-se a exposição nas televisões, rádios e jornais.

Mas as operações de aritmética não terminaram… Os acontecimentos sobrepuseram-se a um período de intenso mal-estar por parte dos professores, em que os protestos adquiriram proporções inusitadas. Todos sabemos da crise de valores que a escola portuguesa atravessa, fruto de desmandos por parte de sucessivos governos. É que as estatísticas escolares, julgam os governantes, podem ser mudadas na direcção da perfeição, independentemente do país em que estão. Há que reduzir a exclusão escolar, há que reduzir o insucesso a todo o custo. Infelizmente, esses índices expressam, não só o funcionamento do sistema de ensino, mas espelham as realidades económicas e culturais que, como de costume, nos deixam na cauda da Europa civilizada.

Como estão na moda os argumentos economicistas, deixamos aqui a interrogação: será lucrativo manter um sistema de ensino que passa alunos, mas que não lhes proporciona aprendizagens? Daqui a uns anos, teremos de inventar um novo nome aos analfabetos que actualmente produzimos…

Enquanto isso, estamos perante um novo escândalo mediático… É preciso castigar a aluna prevaricadora… Em todo o caso, foi um comportamento que passou para a esfera pública, tornou-se simbólico, e exige reparação (se não fosse conhecido, se calhar poderia passar impunemente). Ainda assim, pedimos um castigo pela justa medida: não façamos com que a infractora tenha de pagar pela actual conjuntura política.

Feita a observação, expressamos a nossa profunda solidariedade pela professora.

O Primeiro de Janeiro, 2 Abril 2008.

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