Os idosos: uma população em risco

Logotipo do jornal Primeira MãoMuito se tem feito neste país no que diz respeito à protecção de crianças e adolescentes. Existe uma rede de comissões de protecção a menores, criaram-se núcleos em hospitais, centros de saúde e até em certos estabelecimentos escolares. No entanto, a pirâmide demográfica portuguesa é bem reveladora de uma nova prioridade que se torna premente. As pessoas com mais de 65 anos estão cada vez mais numerosas e a chamada quarta idade, um novo termo emergente na geriatria, é também uma franja da população em forte crescimento.

Os centros das cidades são reflexos deste estado de coisas. Muitas pessoas idosas vivem sozinhas com graves limitações de mobilidade em edifícios velhos e sem condições. Nos últimos tempos, infelizmente, vimo-nos confrontados com casos de pessoas que falecem e só passados anos é que o cadáver acaba por ser encontrado. São exemplos isolados mas que acabam por ser paradigmáticos do desenraizamento em que esta franja populacional frequentemente se vê confinada.

O isolamento faz com que muitos idosos acabem por não ter qualquer estímulo e quadros depressivos graves se acabem por estabelecer. A depressão no idoso, especialmente se combinado com situações de isolamento, pode fazer surgir situações de défice cognitivo. Este suposto défice cognitivo pode ser reversível se a depressão for tratada e o idoso inserido nalgum contexto que facilite alguma forma de socialização.

Muitas famílias com poucos recursos financeiros ou emocionais acabam por não conseguir assegurar ao idoso muitas das suas necessidades básicas. Afloramos aqui a questão dos maus-tratos a idosos. Um assunto que nos deverá merecer as maiores preocupações e cuidados. Os maus-tratos a idosos são invisíveis por muitos motivos. Primeiro a parte fraca não sabe onde se queixar, outros membros da família são coniventes, o controle da sua reforma é um ganho difícil de prescindir.

Também a questão dos maus-tratos institucionais são a ponta de um iceberg de dimensões ainda por identificar. Instituições fechadas sobre si mesmas, muitas vezes sem qualquer licença de funcionamento, devem merecer acções de fiscalização. Neste sentido, seria interessante estabelecer uma série de critérios em termos de aferição da qualidade de cada instituição.

São estes os passos que deverão ser dados no que diz respeito às pessoas mais idosas da nossa sociedade. É necessário criar formas de sinalização e de acção rápida sobre casos suspeitos em termos familiares. É também premente criar dispositivos de fiscalização que tenham uma acção preventiva não apenas sobre as instalações mas também no que concerne a formas de funcionamento e, porque não, propor formas de distinguir a excelência.

As acções preventivas e de promoção da saúde revelam-se também aqui de crucial importância. Referimo-nos à importante questão do envelhecimento saudável. É nos últimos anos de vida profissional que se devem traçar planos para a reforma. A questão do tempo livre, da mudança radical de hábitos de vida pode lançar as pessoas em quadros depressivos ou em estilos de vida que não saudáveis.

A reforma pode não ser sinónimo de inactividade mesmo em termos profissionais. Pode-se planear uma segunda vida profissional lançada noutros pressupostos. A actividade pode basear-se em princípios do prazer, porque a necessidade económica não será tão premente e também servirá para vivenciar um outro papel com que se tem afinidades mas que nunca se teve oportunidade de abraçar até então.

Outro aspecto importante tem que ver com os hobbies ou interesses que se podem desenvolver. A maior disponibilidade de tempo possibilita muitas vezes um maior grau de envolvimento com certas actividades. Referimo-nos até a hobbies que possam proporcionar encontros de pessoas com o mesmo género de interesses e assim eventualmente expandir ou mesmo reconstituir certas dimensões das redes sociais.

A rede de suporte social que qualquer género de actividades praticadas na terceira e quarta idade proporciona, terá efeitos protectores em termos de qualidade de vida das populações. Esta promoção do bem-estar é económica, para usarmos um argumento muito em voga na actualidade, porque atrasa a entrada de muitos idosos em centros de dia e lares com os correspondentes ganhos financeiros para todos nós enquanto Estado. Neste particular a responsabilidade das edilidades é central quer no que diz respeito à organização de actividades dirigidas a esta franja da população, quer atendendo à organização do espaço urbano atendendo às necessidades nomeadas ao longo deste texto.

Originalmente publicado no semanário Primeira Mão,  1 de abril 2011

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