A Banda desenhada e as nossas memórias

Logotipo do jornal O Primeiro de JaneiroUm escritor espanhol entrevistado há uns anos, referia a colecção Tintim como sendo os livros mais estimados e valiosos na sua biblioteca pessoal. Mesmo em situações mais extremas, como um incêndio ou uma catástrofe natural, seria esse conjunto de obras que tentaria salvar em primeiro lugar. Tudo o resto poderia ser reposto.

Os heróis de banda desenhada não envelhecem, permanecem iguais a si mesmos ao longo de um infindável número de aventuras. São o reflexo imaginário dos jovens leitores que nesses livros se embrenham: o tempo, para eles, ainda não conta, é como se não existisse.

Esse imaginário ficou, porém, impregnado nas profundezas dos nossos seres como lugar incontornável. Outras personagens poderiam fazer-lhe companhia: Astérix, Corto Maltese ou o ainda mais venerável Cavaleiro Andante. Em todas essas histórias, os personagens não envelhecem, nem parece que tempo algum decorra entre as suas peripécias.

O brilho desses heróis talvez venha daí, de evocar uma infância em nós em que o tempo não existia. Misturam-se no lugar da origem das nossas histórias pessoais, esse que permanecerá sempre connosco, mas que já decorreu e não voltará nunca. Um escritor já dizia: todas as manhãs do mundo são sem regresso. A consciência desta verdade existencial, tão pesada e desoladora, talvez nos faça necessitar de um momento retemperador. O gosto da leitura de uma BD provavelmente passará pelo retorno a um tempo em que ser-se humano era mais ingénuo e espontâneo.

Precisamos todos, nalgum momento das nossas vidas, de recolhermos às origens, de procurarmos algo em nós que permaneceu imutável. É que o mundo é injusto…

Instado mais tarde a explicar melhor o motivo da sua preferência, o entrevistado sublinhou um outro aspecto: os livros que possuía eram muito antigos, de uma edição desaparecida, que as suas próprias mãos de criança tinham percorrido. Nesse momento, os sonhos uniram-se às mãos que vagueavam pelas páginas… os sonhos jovens e idealistas; as mãos, essas, já apresentando algumas rugas…

O Primeiro de Janeiro, 17 de Outubro de 2007.

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