A telecracia: o governo através de imagens

televisao e telecraciaUm dos mecanismo centrais da propaganda política, em todas as épocas, tem que ver com um conjunto de técnicas de fazer acontecer novamente as coisas e, preferencialmente, fazê-las acontecer de determinada maneira.

Antes de existirem órgãos mediáticos, tais como actualmente conhecemos, essa necessidade já existia. A imagem, seja ela pictórica ou de outra natureza, sempre foi uma forma privilegiada de promover a revivência do acontecimento. Os romanos, por exemplo, durante as guerras púnicas, exibiam na rostra, um local central da capital, as quilhas dos navios capturados ao inimigo. Mais tarde, o imperador Trajano mandou fazer uma coluna em que se contavam, de um modo pictórico e sequencial, a história das suas campanhas militares.

A problemática das imagens colocou-se também no seio da civilização bizantina, durante o período iconoclasta, qualquer representação da divindade ou de santidade era perseguida e destruída. Passado esse momento tormentoso os ícones voltaram a ser venerados e vistos como uma revivência dos momentos religiosos a que aludiam. Assim, jurar sobre um ícone era uma forma de assegurar que o outro teria de cumprir a sua palavra.

A televisão, nomeadamente através de um certo tipo de reportagem pretende mostrar a realidade sem que tenhamos que fazer grande esforço. Vemos a guerra em directo, as bombas a explodir cirurgicamente sobre os alvos. No futebol, escamoteamos de todos os ângulos a jogada polémica para a poder perceber definitivamente. No país sob sublevação popular e consequente repressão policial ou militar, ouvimos este ou aquele manifestante para saber melhor o que está a acontecer e quem tem razão.

Geram-se assim gigantescos momentos de unanimidade. Milhares de pessoas que nunca tinham ouvido falar de determinado assunto acham-se imediatamente informadas, capazes de formular uma opinião definitiva só por presenciarem um programa ou debate. Defendem ainda uma dada posição apenas por aquele participante parecer mais sincero ou o outro arrogante e teimoso. O famoso escritor galego Ballester chamava a atenção para a emergência deste movimento de unanimidade numa das suas crónicas nos finais dos anos sessenta – e é este um dos objectos de estudo da psicologia das multidões.

Mas… se nos quisermos interrogar sobre as imagens e produzir o nosso próprio pensamento, teremos de nos estar constantemente a interrogar. Em primeiro lugar, sobre quem está presente e ausente nos órgãos mediáticos. Depois ter constantemente a noção que a imagem é uma representação e nunca a realidade comodamente servida num canal de televisão – como se o acontecimento pudesse ser entregue nos nossos apartamentos como a mais banal pizza. Em última análise, teremos de sair para o mundo em busca das nossas próprias imagens – objectivo quixotesco mas mais próximo do real.

A organização de uma audiência que possa ser manipulada configura-se como um dos vectores centrais na vivência política de qualquer sociedade contemporânea e, de uma forma bastante mais premente, dos regimes democráticos. O modo como a actual crise económica foi apresentada nos órgãos de comunicação passou muito pelo que aqui se referiu: mensagens duplicadas e triplicadas, a ideia de inevitabilidade, a irresponsabilidade automaticamente imputada a todos aqueles que saiam do mainstream. E, aspecto crucial, há ainda que pensar sobre quem não tem o direito à imagem e à opinião.

Existem vários autores actuais que chamam a atenção precisamente para isto, a democracia acaba por ser pervertida através dos mass media. Trata-se do conceito da telecracia, no fundo o governo de uns poucos sobre todos os outros através da tele.

Rui Tinoco, psicólogo

(sobre o conceito Telecracia de Bernard Stiegler).

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