Onde está a minha morte?

DSCF0371Modernos historiadores levantaram a questão que um dos últimos tabus que ainda vigoram na nossa sociedade tenha que ver com a morte. Numa sociedade em que se tentam ofuscar os limites, em que se encoraja o consumo sem se ter em conta as suas consequências, não existe contra-senso maior, um maior obstáculo do que a incontornável morte.

Ela, a morte, desde há muito nos abandonou. Queremos dizer que deixou de conviver connosco de forma quotidiana. Muitas pessoas morrem em hospitais, depois de prolongados processos comatosos… também os animais deixaram de nos poder oferecer essa lição. Já não morrem à nossa beira: são abatidos em matadouros, longe da nossa vista; ou então em clínicas veterinárias quando os bichos de estimação, por algum motivo, podem fazer perigar a nossa própria saúde.

A estas situações mais exteriores somam-se as nossas próprias escolhas, ou seja somos nós mesmos que deliberadamente tentamos esconder a morte de um familiar aos mais novos ou apenas a de um pequeno animal de estimação. Um exemplo concreto: o do peixe vermelho ou da tartaruga que foram substituídos por outros animais, idênticos, para que o filho pequeno não desse conta. Também os idosos têm muitas vezes dificuldade em conseguir acompanhar as suas famílias e vão para centros de dia e lares onde, progressivamente, se tornam invisíveis para os mais novos.

A morte deixou de nos acompanhar no quotidiano, porque também nas grandes cidades a natureza deixou de ser visível. O convívio com animais domésticos com a vida selvagem tem, neste aspecto, uma função pedagógica que se torna assim inviável.

O avanço da medicina é responsável pelo prolongamento da vida, mas também tem a consequência de tornar a fronteira entre a vida e a morte indefinível. Quando desligar as máquinas de apoio à vida? Como saber se alguém já morreu completamente ou ainda resta uma minúscula esperança? E mais difícil ainda: quando pugnar por essa esperança ou quando desligar as máquinas porque já não há mais nada a fazer? Ariès cita um padre francês que a meio de um processo de doença, ligado a máquinas, num momento de lucidez, protesta cruamente: «estão a roubar-me a minha morte».

Vivemos numa sociedade que hipocritamente incentiva o prazer e o imediatismo sem consequências (que as há, não tenhamos dúvidas) e que, pior ainda, tenta esconder a morte debaixo do tapete. Vivemos todos como se não existissem limites… mas que limite mais radical e avassalador do que a morte? Fingimos que ela não existe mas, quando somos confrontados com ela, cada vez temos menos ferramentas para nos defender.

Neste sentido, o crescimento de patologias relacionadas com o luto da perda das pessoas que nos são mais queridas é um sinal avassalador da nossa falta de sabedoria e cegueira. A medicina e as ciências da saúde em geral ajudam-nos a viver e a saber o que é a vida, resta-nos a esperança que um dia nos possam também ensinar a morrer…

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