A cidadania como produto de consumo

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O Verão pode ser enganador: apesar das temperaturas escaldantes, os dias continuam a encurtar e bastará o recomeço das aulas para que as ruas se entupam novamente, enchendo as horas de pequenas torturas. Há mil e um motivos para nos lamentarmos do final desta estação tão bela. A razão da nossa lamúria, porém, pode até parecer um pouco inesperada: a entrada na reserva do depósito de gasolina do nosso carro.

Como vem sendo hábito em muitas famílias que vão ao estrangeiro ou que habitam em zonas fronteiriças (eis o benefício de uma certa interioridade) a compra de certos produtos espanhóis é quase incontornável. Entre eles, adquire especial realce o caso dos combustíveis. Assim, um litro de gasolina de 95 octanas é mais barato, em média, cerca de trinta cêntimos. Previdentes, antes de cruzarmos a fronteira, enchemos o depósito até ao último decilitro…

Mas o choque automobilístico não se ficou por aqui: é que, para cruzarmos as imensas distâncias espanholas, incluindo Castela Leão, Estremadura e Andaluzia, fomos servidos por auto-estradas bem tratadas, sem constrangimentos, de forma completamente gratuita. Que diferença! Esquecemo-nos ao longo do ano como é ingrato viver no nosso país e quando nos confrontamos, de facto, com estes desequilíbrios não deixamos de ficar chocados.

DSCF0452As novas gerações lusas vivem a nacionalidade de modo completamente diferente do que tinha vindo a ser tradicional. Quando frequentam a universidade, mesmo no decurso da licenciatura, não existem muitas barreiras para se ir fazer um ano num outro país. Não é muito difícil antever o surgimento de jovens técnicos que façam os seus percursos profissionais a nível da União Europeia.

Portugal tem que se tornar competitivo também ao nível da cidadania. A pergunta é e será: o que é que o facto de ser cidadão português traz de vantagens e desvantagens? Resposta: ser português faz com que se pague a gasolina muito mais cara, exista uma carga financeira inacreditável sobre a mobilidade, se tenha de suportar pesados impostos. A cidadania vai passar a ser um simples produto de consumo entre outros…

Milhares e milhões de portugueses trocaram de país desde há muito… mas agora a pressão é visível noutros extractos sociais, como por exemplo sobre a nossa população estudantil que frequenta universidade e não tem cá qualquer possibilidade de emprego. Ninguém se preocupa verdadeiramente… Existirão, apenas, vozes indignadas quando os nossos jogadores de futebol, contratados ainda imberbes por grandes clubes europeus, optarem por outras nacionalidades, por representarem outras selecções. Não nos iludamos, não vamos ser só nós a importar Decos e Pepes, vamos passar também a país exportador de talentos a esse nível.

Enquanto isso não acontece é tempo de terminar este texto. Voltemos à viagem que efectuámos: as terras espanholas que percorremos não nos permitiram regressar de uma estância distante. Regressámos do Algarve… e o dinheiro se poupou em portagens e em gasolina pagou a pernoita que lá efectuámos. Não nos apetecia ter regressado.

RT, O Primeiro de Janeiro , 12 Setembro 2007.

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