Educação para o consumo

As sociedades atuais regulamentam quase tudo. Os Estados, através de normativas, decretos-lei e um sem fim de obrigações, acabam por se intrometer nos mais pequenos gestos dos cidadãos. O que está em causa defender não é somente o bem-estar individual mas o das populações no seu todo. Este cuidado legislativo abarca áreas tão diferentes como a segurança – usar o cinto de segurança, por exemplo –, a higiene alimentar, o consumo de tabaco e de substâncias ilegais, entre um sem fim de outras situações.

A liberdade individual é, pois, constantemente delimitada em nome da salvaguarda de si mas também dos outros. Até este ponto nada de espantar…

Porém, digno de maior surpresa é a falta de regulamentação de muitos aspetos relacionados com o consumo. Não nos referimos à vertente da qualidade do produto ou do direito do consumidor, tidos na sua dimensão global. Referimo-nos à vertente do crédito ao consumo. Parece que aqui se espera que sejam as próprias famílias a tomar decisões corretas sem praticamente defesa alguma. Por todo o lado, incentiva-se o consumo: na publicidade, nos anúncios a empréstimos fáceis – mas assassinos nos juros.

Espera-se que as famílias tenham um comportamento responsável mas procede-se de modo exatamente oposto. As consequências vêem-se no aumento praticamente exponencial do número de famílias falidas ou insolventes. O incentivo ao consumo está presente nas mais inesperadas situações, apontando frequentemente às crianças e jovens. A publicidade dirigida a estas faixas etárias refina-se progressivamente. Nos cinemas e canais temáticos, a publicidade não se limita aos tradicionais reclames mas surge encoberta nos filmes e nos gestos dos personagens. As famílias são, assim, objeto de um cerco agressivo.

Entretanto, no Grande Porto, em quase todas as principais saídas rodoviárias existem mega-centros comerciais – os denominados shoppings. E também o tecido urbano da baixa ou Boavista foram inundados por este género de estabelecimento. A situação é preocupante e é já tempo do poder político abordar a questão.

É urgente promover medidas que salvaguardem as famílias de comportamentos irresponsáveis que as acabem por prejudicar. É por isso que deixamos aqui a sugestão: a educação para o consumo responsável, para o consumerismo, poderia ser um projeto útil e aglutinador dos diversos poderes autárquicos da nossa zona metropolitana.

Trata-se, no fundo, de desenvolver uma série de projetos educativos tendentes a capacitar os mais novos com uma série de comportamentos responsáveis em relação ao consumo – o denominado consumerismo. Antes de mais, convém capacitar os jovens e suas famílias em relação às estratégias usadas pela publicidade e desconstruir alguns conhecimentos dados como adquiridos, mas na realidade incorretos. Depois, incentivar atitudes protetoras por parte de todos.

Estes objetivos são, como dissemos, congregadores em termos metropolitanos, mas não eximem de responsabilidades o governo central e até as instâncias europeias: é urgente legislação protetora das famílias no que à área do consumo diz respeito.

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