Mobbing e saúde mental nas empresas

 Logotipo do jornal Primeira MãoVivemos numa sociedade em que vingou um certo modelo económico que exige taxas de crescimento da economia, promovendo uma competição feroz entre empresas. Os rumores nas bolsas, aliados à celeridade com que a informação circula, desencadeiam ondas de especulação de nefastas consequências – como, aliás, todos nós estamos a constatar por experiência própria. No interior das empresas, a pressão desenfreada por resultados pode tornar as relações entre profissionais bem tensas e complicadas. A exigência de resultados torna, em certos casos, as chefias superiores ou intermédias bastante desagradáveis: ao que lhes é pedido, somam a sua dose individual de prepotência e despotismo.

Aproximamo-nos assim do conceito de mobbing. Este conceito traduz-se como um «relacionamento hostil e imoral praticado directamente de forma sistemática por um ou mais indivíduos contra outra indivíduo que acaba por se encontrar numa posição indefesa» (Messias Carvalho). Neste sentido, é uma espécie de bullying que em vez de se desenrolar em meio escolar, acontece na esfera profissional. As consequências psicológicas podem ser bastante nefastas. De facto, este género de situações prolongam-se, por vezes, ao longo de meses e até de anos. A vítima vai-se sentindo apoucada e desprezada. Os sintomas depressivos e ansiogénicos acabam por surgir. O eu profissional, de um certo modo, corre risco de aniquilamento. A vivência de incapacidade e o sentimento de indefesa são aqui dominantes.

A vítima vai pondo em causa a eficácia dos seus actos e do seu valor enquanto profissional. Nada parece bater certo: por muito que se esforce e evidencie iniciativa é sempre criticado. Os golpes sujos sucedem-se. Progressivamente, as defesas acabam por ser desinvestidas e a vítima é incapaz de responder. Sofre em silêncio, passando os dias na expectativa de mais um ataque.

O exemplo mais extremo das consequências do mobbing deu-se quando um trabalhador francês se suicidou em frente da empresa que o empregava. Esta é com certeza uma pequena ponta do iceberg: muitos outros profissionais tomam depressivos, ansiolíticos ou zangam-se em casa devido a situações aversivas e continuadas no decorrer das suas actividades profissionais.

Se muitos economistas com preocupações ecológicas, defendem que o modelo económico baseado num contínuo crescimento não é sustentável, nós constatamos as consequências psicológicas desta pressão em muitos trabalhadores. Particularmente na esfera da saúde mental as perdas em termos de nível de qualidade de vida são bastante consideráveis. Apesar de toda a evolução técnica dos tempos modernos, as velhas interrogações continuam aí: «Como coabitar com o nosso planeta?»; «Como construir uma vida boa?»

Originalmente publicado no semanário Primeira Mão, 22 de Julho de 2011.

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