As after hours privadas

Logotipo do jornal O Primeiro de JaneiroDurante muitos anos a cena nocturna foi marcada por uma constante quebra dos limites. Quem se diverte até mais tarde? Quem ingere mais álcool ou outro género de drogas? Mas as exigências são paradoxais: é preciso beber, fazer loucuras, mas sem perder uma certa compostura… Assim, muitas discotecas começaram a abrir as suas pistas de dança a partir das quatro da manhã, numa corrida para se ser mais cool. O que é fácil torna-se objecto de desprezo, o que é difícil e não se oferece de imediato, tende a ser mais apreciado…

O problema de tudo isto é que até a noite tem limites e, mais cedo ou mais tarde, conforme a época do ano, o sol teima em nascer, contra todas as expectativas dominantes nestes meios. Como é que se resolve este problema? As after hours constituem um fenómeno recente em que a noite é reinventada durante o dia. Depois das discotecas fecharem, começaram a organizar-se festas em casas privadas ou abandonadas. Não se pense que estes espaços são menos investidos: tratam-se de dignos representantes da noite durante o dia, isto é: com DJ, música, ambiente escuro…

A humanidade sempre gostou de testar os limites e, nos tempos de abundância, pese embora o espectro da fome que paira sobre as nossas cabeças, é dada a comportamentos dos mais bizarros. Porém, a quebra de limites faz-se apesar dos corpos ou melhor, contra eles. Por outras palavras: como é possível que um corpo aguente duas ou três directas seguidas, bebendo e comendo pouco… Não é fácil resolver a equação… a não ser que façamos batota e consumamos drogas…

A quebra dos limites dos corpos faz-se através da solução milagrosa de uma série de estimulantes. Quebrando a rotina cinzenta dos dias da semana, sexta, sábado e domingo fornecem o ensejo a uma libertação ritual. Mas qual o preço de tudo isto?

Os países do norte e centro europeu confrontam-se com movimentos nocturnos massificados, em que existem grupos de consumidores com apreciável número de efectivos. Multiplicaram-se associações de consumidores e de equipas técnicas de redução de riscos nestes contextos. O objectivo passa pela responsabilização dos consumos, numa óptica de diminuir ao máximo os danos colaterais da ingestão de drogas e abrir portas a eventuais tratamentos de desintoxicação.

Nada disto é novidade, mesmo no nosso país, no que diz respeito a consumidores de rua de heroína e cocaína. Já no que concerne às novas drogas, muito ligadas a estes contextos de festa as experiências lusitanas são pouco mais que incipientes. É hora de mudar.

O Primeiro de Janeiro, 14 Maio 2008.

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