Terrorismo e ordem política

Logotipo do jornal O Primeiro de JaneiroUm infindável número de textos se debruçou sobre o dia 11 de Setembro: o atentado conseguiu invadir o coração da lógica ocidental, o espectáculo. Eis que o terrorismo se transforma em incontornável acontecimento mediático. Por momentos não foi possível a lenta anestesia dos concursos. É que, quotidianamente, milhões de pessoas, no mundo ocidental, cultivam um deliberado afastamento da realidade.

Realidade e espectáculo passam a ser sinónimos. E o terrorismo conseguiu reivindicar o poder do espectáculo e subvertê-lo. A imagem dos prédios desmoronados foi repetida à exaustão, como se os media estivessem realmente a murmurar a sua impotência: eis toda a realidade dos factos, eis a impotência e a estupefacção.

De seguida, o processo era previsível: a insegurança alastrou e atingiu níveis alarmantes. A insegurança objectiva, bem entendido, mas principalmente a insegurança espectáculo: a oriunda de pânicos morais facilmente inflamados nos espaços colectivos das sociedades modernas.

A partir desse momento o terrorismo e o medo dele passaram a instrumentos da trama política e diplomática. Os exemplos são fáceis de evocar: a Rússia passou a referir-se à guerrilha da Tchetchénia como um movimento terrorista; Israel ganhou outra legitimidade para tentar controlar os terroristas da Palestina; os próprios EUA recortaram no mapa dos seus interesses geoestratégicos um suposto eixo do mal, que surpreendeu até diversas diplomacias europeias.

Inopinadamente o mundo encheu-se de terroristas, sem que ninguém consiga definir claramente o que é terrorismo. Os guerrilheiros tchetchenos são ‘maus’? Os curdos são bons no Iraque, onde têm honras de protecção americana, mas são terroristas na vizinha Turquia?

De uma situação bem visível, em que o terrorista conduz um avião e mata civis completamente inocentes, passou-se ao complexo jogo de interesses, em que o conceito de terrorismo é apenas mais uma arma para ser esgrimida no cinismo das relações internacionais.

É que se tudo isto tivesse acontecido há alguns anos atrás, poderíamos ter sido surpreendidos por um governante indonésio a referir-se ao terrorismo que supostamente grassaria em território timorense…

In O Primeiro de Janeiro,  16 Setembro 2002

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