Reality shows e totalitarismo comunicacional

Logotipo do jornal O Primeiro de JaneiroInteressa-nos para aqui a reflexão que qualquer linguagem pode fazer sobre si mesma. A pintura desde muito cedo oferendou-nos trabalhos que incentivavam a reflexão sobre a representação. As Meninas de Velasquez possibilitam a figuração da complexidade do olhar do artista. Mais recentemente Magritte, no célebre quadro intitulado Isto não é um cachimbo põe em causa a evidência que nos é oferecida na figuração pictórica – afinal, todos os cachimbos desenhados não são, definitivamente, cachimbos.

A noção de representação ou, se quisermos, da figuração da realidade na televisão tem vindo a sofrer alterações. Não no sentido de uma complexificação, mas de um empobrecimento que expõe o ouvinte a um dogmatismo comunicacional tendente a despojá-lo da reflexividade. Ou seja: a televisão não nos brinda com jogos sobre si, à maneira da pintura, mas passa a afirmar-se como realidade.

Não nos esqueçamos: falamos de imagens e elas são sempre representação de algo. O que acontece é que a televisão esqueceu-se do seu lugar figurativo e, ilegitimamente, passou a reclamar-se do mundo. O interesse perpassa vários campos: o telejornal que exibe o assalto em directo; a grande revelação musical que se dissipa na semana seguinte; o concurso que mostra a verdade última da relação entre as pessoas.

Quando a figuração era assumida na sua plenitude a mensagem podia ser metafórica. O espectador teria de pensar essas representações e apropriá-las para a sua vida. Actualmente, as narrativas surgem-nos empobrecidas por se limitarem ao agir. Imperam os factos, desaparece a subjectividade. Mesmo as telenovelas só nos são capazes de oferecer histórias de vida sem coerência interna, com as emoções a derivarem de acordo com os níveis de audiência. O espectáculo da realidade televisiva prende-nos ao presente e ensina-nos um homem sem memória, que é evidência para si. Mas o eu é uma evidência? Ou é um contínuo esforço sobre o esquecimento?

Touraine chama-nos atenção para o duplo signo da vivência da individualidade na nossa cultura: conhecimento versus alienação de si. Um exemplo deste logro é as ‘sondagens’ de opinião. Uma problematização superficial de uma questão autoriza todos a ter um ponto de vista. Os argumentos contraditórios deixam espaço ao gosto de cada um. Mas uma opinião não é um vestuário que se põe e tira, é um esforço de pensamento que nos ensina, de uma nova maneira, a humanidade que carregamos connosco.

A opinião vale pelo caminho que a ela conduz.

Aqui a ‘realidade’ do debate parece esgotar um assunto. A discussão é frequentemente inconclusiva, não pela irresolubilidade do diálogo, mas pela evidência de gostos diversos que escolhem ideias diferentes. Cada eu tem direito à sua sentença – assim deveria ser – se tudo isto fosse um exercício de razão e não uma mera exibição narcísica.

Os reality shows são a consubstancialização da perda da complexidade figurativa, e é entre o real e a representação que o pensamento se move. Nos espectáculos reais – não há aqui algo de profundamente contraditório? – a figuração é o real, a mensagem emitida pretende-se acima da dúvida. A espectacularidade coisifica-se, ou pretende fazê-lo e deseja pertencer à mesma classe de fenómenos que engloba a luz do poente, a água em que mergulho na exaustão.

A tentação totalitária deste meio de comunicação é, por tudo isto, evidente. A mensagem construída não é mensagem, é substância: é realidade, é o próprio mundo que nos entra mais bem afinado pela nossa sala de estar. Afinal, a comunicação mediática só tem um sentido e nós somos definitivamente receptores passivos, mesmo quando telefonamos, exprimindo a singularidade do nosso gosto: a nossa opinião.

A ciência advoga o sentido da dúvida, o não aceitar a primeira evidência da realidade. A televisão, pelo contrário, pretende  consubstancializar-se, tornar-se uma evidência que dispensa o raciocínio. Será por isso que muitos defendem-se, dizendo ter necessidade de não pensar quando, ao fim do dia, ligam a caixa que mudou o mundo para mais uma sessão de esquecimento?

Também eu tenho necessidade de esquecimento: desligo a tv, deito-me na terra, perscruto com dificuldade a abóbada celeste. É que a cidade parece querer afogar todas as estrelas com a sua luz…

In O Primeiro de Janeiro,08 Julho 2002.

*

Também poderá estar interessado em ler:

Comunicação em consulta e os profissionais da saúde

Notas sobre o ato de (não) ler na internet

Os media como pedagogia do esquecimento

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s