A Escrita Inebriada

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Segundo Vigarello, os viajantes das descobertas e de épocas anteriores descreveram experiência da ingestão de substâncias, como o ópio ou o haxixe, em função do produto mais próximo culturalmente – o álcool. Os finais do século XVIII, porém, iriam assistir a uma mudança neste estado de coisas. Diversos escritores conseguiram evocar os efeitos das drogas numa perspectiva vivida e autobiográfica, isto muito antes da toxicodependência se ter tornado um objecto digno de estudo científico.

O consumo de substâncias exóticas, estranhas à cultura europeia, foi finalmente alcandorado a tema literário através do relato autobiográfico de De Quincey. O autor confessa a sua experiência de comedor de ópio, distinguindo conceitos que ainda hoje levantam algumas celeumas: a questão da automedicação, a distinção entre uso e abuso de substâncias.

A obra teve grande sucesso quer pelo o uso de um género pouco utilizado até então, a autobiografia; quer por tratar de um assunto que suscitava curiosidade e atracção, a substância estranha e exótica. O autor abriu pistas, da mesma forma, a uma problemática que, ainda que incipientemente desenhada, vir-se-ia a tornar um tema recorrente até aos dias de hoje: o uso de substâncias pode expandir a experiência de si e, por isso, tornar-se um instrumento de autoconhecimento; pode também usurpar a liberdade de cada indivíduo, alienando-o.

Durante o século XIX a vertente dominante foi a atracção. Existia uma grande curiosidade em relação a um sem número de novas substâncias. Um igual número de escritores reflectiu sobre elas, relatando as suas aventuras de experimentadores. Desde logo, é sobejamente conhecido o caso de Baudelaire nos Paraísos Artificiais. O haxixe é a substância eleita, cotejada nos seus efeitos e inconvenientes com o ópio de De Quincey. Baudelaire é peremptório: o haxixe tem efeitos imediatos muito superiores ao ópio. A situação paradoxal dos efeitos imediatos da substância é, da mesma forma, descrita: o indivíduo vê-se perante um turbilhão de ideias e de projectos, ao mesmo tempo que a sua capacidade de os realizar se encontra seriamente coarctada.

Baudelaire é o caso mais conhecido desta literatura confessional e reflexiva sobre os efeitos de substâncias, mas existem outros como Maupassant e Balzac. Maupassant dedicou alguns textos ao uso do éter. O pequeno conto Sonhos põe-nos perante um médico que descreve os efeitos estranhos e atractivos do éter. A plateia de amigos prontamente solicitou o acesso à substância, ao que o médico argumenta: “vão envenenar-se por outro”. O final do conto deixa-nos nas mãos, subtilmente, a contradição inerente ao consumo: a experiência é agradável, em muitos aspectos, mas não deixa de ser um envenenamento.

O século XX viria a acentuar mais a ideia da alienação de si. A vertente não foi ignorada nestes primeiros relatos mas passava quase despercebida. Na maior parte das vezes era uma situação adivinhada. Balzac afirmou, por exemplo, perante a situação de iminente sobredosagem de cafeína, a sua substância de eleição: “a sábia natureza aconselhou que me abstivesse”.

A alienação de si, no século XX, é muito mais extremada, centra-se na completa perda de controle dos actos do indivíduo. Uma outra vertente, activista, centra a sua posição na defesa da acção benéfica das substâncias como elementos potencializadores do desenvolvimento pessoal. Correndo o risco de simplificação, os primeiros tiram as suas conclusões a propósito de substâncias da família dos opiáceos; os segundos, a partir de alucinogéneos como o LSD, a mescalina, e outras substâncias com algumas características alucinogéneas como o haxixe.

O testemunho de Reinaldo Ferreira com o seu livro Memórias de um ex-morfinómano é um exemplo das agruras e do descontrole que o consumo da morfina pode trazer ao indivíduo. No livro são descritos alguns momentos aflitivos de abstinência, as dificuldades no tratamento, a ambivalência sentida face à desintoxicação. Burroughs, em diversas obras e excertos autobiográficos, relata o expoente de degradação pessoal que a dependência à heroína lhe fez viver. O relato de um quotidiano organizado em torno da substância está descrito ao pormenor em Junky e é um exemplo paradigmático da alienação.

Do lado da descoberta de si, temos Huxley com o famoso relato Doors of Perception. Nele defende o escritor as propriedades educativas e reveladoras da mescalina. Da mesma forma, Leary e Lilly experienciaram a aventura de consumo e da viagem psicadélica como uma forma de vida alternativa à quotidiana. Viviam-se os tempos da contracultura norte-americana e a utilização de substâncias era também uma forma de protesto.

Actualmente, o ecstasy e as novas drogas ligadas ao movimento nocturno das raves e festas do género, proporcionam um novo contexto de relatos autobiográficos. Mas quando é que entenderemos que as drogas são o que fizermos delas, não possuindo propriedades morais por si mesmas?

Terminamos este texto com a noção helénica de pharmakon: a substância não é nada por si mesma, somente o uso é que dita consequências morais. Paracelso, médico renascentista, embebido da mesma cultura, defendia posição semelhante: só a dose é que faz o veneno.

In A Página da Educação, Fevereiro de 2003.

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