O ladrão de sabores

Logotipo do jornal O Primeiro de Janeiro

O advento dos supermercados e mais recentemente dos hipermercados, alterou radicalmente o mercado. As novas estruturas, equipadas com centrais de compras poderosas, capazes de gigantescas encomendas, conseguem importar produtos dos mais recônditos cantos do planeta e vendê-los no nosso país por módicas quantias. Para o consumidor, a primeira reacção é de júbilo perante tamanha diversidade e alternativa de escolha.

Mas será sempre assim que as coisas se sucedem? Muitos produtores nacionais viram-se impossibilitados de colocar os seus produtos no próprio mercado nacional. Os hipermercados fazem ofertas que, segundo eles, não conseguem superar os custos de produção. Deste modo, as boas colheitas não são sinónimo de abundância para grande parte dos agricultores portugueses, mas de apreensão: em última análise, muitas frutas amadurecem nas árvores mais do que deviam e acabam por cair ao chão para apodrecer.

Aproximamo-nos assim do título deste texto. Muitas variedades de morangos, maçãs, pêras, entre outros exemplos, às quais nos habituámos durante a nossa infância, foram varridas das prateleiras onde fazemos as nossas aquisições. Em vez disso, cruzamo-nos com uvas da Argentina, bananas da Guatemala, toda uma panóplia de países. Trata-se de frutas modificadas, como por exemplo a uva sem grainhas, e com sabores desmaiados como se de uma mentira se tratasse.

Não sejamos totalmente pessimistas: abriu-se uma pequena franja de mercado no interior do chamado comércio tradicional. Referimo-nos a pequenos mercados que conseguem estabelecer minúsculos circuitos comerciais com os agricultores nacionais. Aí é possível reencontrar muitos sabores perdidos de que transportamos esquecidas recordações gustativas. Este género de mercado pode assumir diversas facetas, desde a velha mercearia na sua luta pela sobrevivência, ao estabelecimento que aposta numa certa imagem gourmet. É verdade: o que nos era outrora oferecido, como se da mais banal situação se tratasse, pôs fato e gravata nessas lojas. A fruta de qualidade, afinal, até pode ser chique.

Passámos por uma experiência destas recentemente. Deparámo-nos com uvas moscatéis numa dessas pequenas mercearias. Pareceram-nos familiares, mas não nos recordávamos do nome. Ao reconhecê-las, comprámo-las e saboreámo-las: tínhamos sido despojados deste sabor por demasiado tempo!

O Primeiro de Janeiro, 1 Outubro 2008.

*

Também poderá estar interessado em ler:

Documentário e spots PASSE

Os idosos: uma população em risco

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s